domingo, 31 de janeiro de 2021

DE PRÊMIOS, ARMADILHAS E OUTRAS COISAS

 DE PRÊMIOS, ARMADILHAS E OUTRAS COISAS

E não adianta pensar em mudar de vida, comprar uma casa no
campo, viajar por lugares exóticos,
morar numa cidade ainda mais cosmopolita,
ter filhos ou não tê-los,
aposentar-se logo que possível... não, não adianta: a vida,
a nossa espreita em cada esquina,
ungindo os cheiros das distâncias, os planos da economia, a
subida do dólar, o amparo da alegria, a visita dos amigos,
a vida tem, a nossa revelia, seus prêmios
e armadilhas para distribuir. Não,
não adianta pensar em mudar de vida (todo lugar é Rio),
mas viver a vida, vivê-la na cidade, no campo, no mijo,
no mosteiro do himalaia, em ivolândia... dar aulas na
universidade, publicar um livro sem leitores, vender imóveis
alheios e depauperados. Viver, viver a vida,
vivê-la a cada instante, subir seus picos, frios,
no sol ou na noite, o da pedra do sino, o da bandeira,
o kilimanjaro, e depois descê-los, aproveitar as madrugadas
de peitos e vagina, de pêlos e pênis, o amor encontrado
ou perdido, exercitando sempre, passo a passo,
o vigor possível: em longas caminhadas,
quem enxerga são as pernas.

Às vezes a sua letra parece com a de um familiar falecido?



Por que não pode abrir esse caderno?
Tem uma caixa com meus dentes de leite e uma lasca de cortiça
Atualmente
Uma grande janela ilumina nosso sono
Atualmente
Sintetizadores tem me interessado
Ontem
Um mal estar tirou a minha fala
Um homem agrediu outro homem
Você abriu a porta e mostrou a sua cara
A imagem do clarão do trovão já caiu
É mais fácil cantar com uma melodia
No deserto, a temperatura cai rápido
O solo seco, com pouca água, perde calor para a atmosfera
Quando anoitece, tudo esfria junto.
Você, por você,
Moraria em Belo Horizonte?
Às vezes a sua letra parece com a de um familiar falecido?


 

"No amor, no mínimo, confia-se na diferença, em vez de desconfiar dela."




 

buscar o amor para encontrar o exílio / buscar o amor, encontrar o exílio: marchar

 Buscar una cosa

es siempre encontrar otra.

Así, para hallar algo,

hay que buscar lo que no es.


Buscar al pájaro para encontrar a la rosa,

buscar el amor para hallar el exilio,

buscar la nada para descubrir un hombre,

ir hacia atrás para ir hacia delante.


La clave del camino,

más que en sus bifurcaciones,

su sospechoso comienzo

o su dudoso final,

está en el cáustico humor

de su doble sentido.

Siempre se llega,

pero a otra parte.


Todo pasa.

Pero a la inversa.


Roberto Juarroz