sábado, 19 de julho de 2014

combalidos

como responder-te?
se cada frase ergue a ponte
pela qual você tu te encaminhas, e somes.
como responder-te?
se me amas no silêncio
se amas o ser que me habita
mas não suportas as forças que o animam.
como responder-te?
tu amas não sabes a quem, não sabes a quê
tu não amas além do violento suspiro
de quem está vivo e, por vezes, não respira.

desencontramo-nos
e já a terra começa a deter-nos
vencidos pela tua mudez
vencidos pelo teu dedo opressor
vencidos pela tua estupidez

a nós nos resta o canto turvo
débil, inválido
dos homens que vivem e temem.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

“Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo. Esta escolha, tão rigorosa que só retém o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras!), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem a tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável quer dizer: este é o meu desejo, tanto que único: “É isso! Exatamente isso (que amo)!” No entanto, quanto mais experimento a especialidade do meu desejo, menos posso nomeá-la; à precisão do alvo corresponde um estremecimento do nome; o próprio do desejo não pode produzir um impróprio do enunciado: deste fracasso da linguagem, só resta um vestígio: a palavra “adorável” (a boa tradução de “adorável” seria ipse latino: é ele, ele mesmo em pessoa)." Barthes (fragmentos de um discurso amoroso)
lembro do muro colorido e do jogo das perguntas
e faço questão de lembrar de você, meu amigo querido e meu amor
pois foi lá, lá e tantas vezes, que eu percebi de novo que vc é show!