terça-feira, 27 de outubro de 2015

Tô lendo um livro maravilhoso onde uma das principais personagens, Maslova, aparece o tempo inteiro na narrativa, mas só ganha vida quando é atravessada pelo olhar de algum homem. O livro começa, inclusive, com o julgamento de Maslova após um crime super interessante: Maslova é uma prostituta e um de seus clientes começa a obrigá-la a violar-se mais do que o normal dos outros homens; a personagem decide, então, colocar um sonífero em sua bebida, para escapar do quarto durante seu sono. O sonífero, na verdade, era um veneno - detalhe que Maslova desconhecia. O interessante é que, para escapar dos ataques do homem, adormecê-lo parecia ser a saída prática, mas o destino ofereceu à personagem a única saída verdadeiramente eficaz: a morte do homem. Para florescer a identidade feminina ou algo que o valha, algo no homem simbólico há de morrer. Enfim. Outro detalhe interessante é que Maslova é levemente estrábica, sugerindo que o olhar errático da mulher apresenta espaços ocultos impenetráveis àqueles que não guardam o mesmo estrabismo, sugerindo que a Maslova habita dois mundo diferentes ao mesmo tempo, conciliando princípios e temporalidades que, no mundo dos "homens", são inconciliáveis, além de guardar também um refúgio maravilhoso que seduz todos que percebem sua existência, embora não o penetrem. O estrabismo de Maslova, pra mim, é uma bela representação de sororidade também - estrábicas que se olham e se reconhecem. E, também de novo, é uma bela representação do quanto a mulher tem de se fingir de sonsa, se fingir de cega pra sobreviver com algum nível de sanidade nesse mundo. Foda.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

e de repente eu tava falando forte, falando gíria. eu pensava e falava, nao ficava preso. a coisa vinha, e dava certo. e eu gostava muito. acho que era eu assumindo minha brasilidade, um sotaque ancestral, e a palavra ficava forte. foi uma coisa assim de assumir mesmo. assumir que eu nao me fiz sozinho, que eu ja existia antes e que o que eu sou agora quase nada se deve a mim, entao deixei essa ideia me tomar e falar com o meu corpo. e eu nao era passivo nisso tudo nao, era eu que mexia a massa. e ta dando nisso, nisso de eu conseguir falar com os outros e nisso dos outros gostarem de me ouvir. é que eu acho que falo com eles e com todos aqueles de antes deles, que tão dentro. e dai toda a gente conversa de verdade, não é só palavreação nao.

sábado, 3 de outubro de 2015

Casa de bicho
eis o feminismo
animalesco
do micro ao macro
sendo sempre macro
e sempre micro
sendo uma terceira coisa
unitária e multiforme
totalmente adaptável
salvo aqueles que desejam rasgar vértices
como as abelhas arquitetas
como os pequenos insetos esmagáveis
como as onças, leoas, jubartes
amplamente conectadas com o ao redor
amplamente integradas
a tudo
tudo
tudo
tudo
tudo é a jubarte, a onça, a leoa, a abelha e o cupim
e a mulher
quem segura essa?
ninguém segura
a única segurança aqui
decorre de olhar nos olhos e finalmente
não esperar segurança
nem vivenciar a anarquia
nem, tampouco, retornar ao marasmo das aldeias
perde muito quem ainda vê a abelha,
jubarte, onça, leoa e outras criaturas
como animais do tempo presente
todas essas
já têm a cabeça e parte do corpo no futuro
vocês lhes prendem o coração
que é por onde elas respiram.
Do ponto de vista representativo, a presença do sujeito é ideologicamente duplicada de modo que ninguém mais se reconhece, restando apenas o partido individual, que por ser individual é partido e dual ao mesmo tempo, o que dá uma merda tremenda, do ponto de vista social, ético, político e estético, que é feio pra cacete as coisas fragmentadas, exceto as constelações de estrelas, mas estas já morreram e lhes resta apenas a luz, e luz sem espaço material para devida propagação todos já sabemos que não se propaga, como acontece com o som no vácuo. O que quero e preciso dizer é: votem na parte de si mesmos que se realiza apenas nos momentos de íntegra contemplação estelar. Sempre foi assim e uma coisa que eu gosto é da tradição. Desde que surgiu essa galera no planeta seguindo outras coisas que não os astros celestes, as coisas se complicaram muito, e complicadas as coisas só nos resta o recuo individualista. E já sabemos a merda que dá esse recuo.
A: Procurando um signo que me represente
B: No debate entre os corpos celestes, Plutão segue sendo a indefinição. Do ponto de vista de um corpo celeste, o espaço é sideral. Do ponto de vista sideral, Plutão é um corpo celeste. Do ponto de vista da ONU, foda-se. Do nosso ponto de vista, apenas apanhei a beira mar um táxi pra estação lunar.

Do ponto de vista das cores, azul marinho é um abismo.
Do ponto de vista da Verdadeira Justiça Social, estar sozinho numa sala gelada de escritório produzindo irrelevâncias do ponto de vista ético comum é uma droga, é um câncer que a todos mata.