eu nao ligo de pensar em vc ouvindo tulipa ruiz
eu nasci quase no xxi e sou uma pessoa comum nao sou excepcional, nao tenho grandes ideias nem deixarei grandes obras meus passos e meus sonhos são comuns, e você ainda me sinaliza que eu sou bastante tradicional entao acho que ao invés de ficar lutando contra isso e me remoendo quando vejo pessoas brilhando ao seu lado, e eu me sinto bem chocha acho que eu vou começar a assumir que penso em você com artistas nacionais comuns - marisa monte, skank e tulipa ruiz nao tenho um carro, um apartamento, um super dinheiro pra gente inventar ideias mil nao tenho uma família bilíngue e multidisciplinar nem carimbos num passaporte super interessante mas tenho a minha normalidade quente e aconchegante como a parcela de bom senso do senso comum como as redes nas varandas, os thiagos, pedros e marianas como a crença de que "o amor é bom, não quer o mal" dos parentes que ouvem comovidos legião urbana uma vez por ano, reunidos num apartamento de varanda no méier, e sentem uma faísca de vontade de mudar a vida
https://www.youtube.com/watch?v=InOxrMW04-Y
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018
sexta-feira, 23 de novembro de 2018
falas-duplas, falas duvidosas, cyberespaço, cinismo, públicoxprivado
interessante post. é interessante observar o que tem acontecido na política e na vida social à luz do entendimento sobre a automatização e robotização das cadeias produtivas e do estreitamento das fronteiras entre o trabalho morto e o trabalho vivo. está implícito aí um processo inevitável de realocação e ressignificação das fronteiras também entre o espaço público e o privado, necessário para fluírem os fluxos de informação privada e incisão de desejos que serão um novo motor da próxima etapa de acumulação e colonização capitalista (o cyberespaço, o sexto continente, a nova colônia expressa isso tão bem). as esferas binárias da vida social vêm, cada vez mais, se confundindo - num balançar ação-reação, revolução-contra revolução. na verdade, nunca estiveram separadas, sempre operaram dialeticamente. mas reagíamos à separação cinicamente, numa inversão fetichista privado > público (igualdade universal entre todos no mundo público, diferenças expressas no âmbito individual, conflitos mediados pela forma mercadoria, por intermédio das "coisas" - sabemos do significado das coisas, mas agimos como se não soubéssemos - daí a reação cínica, ou seja, desengajada). hoje, prevalece uma lógica superior da fantasia capitalista, onde as coisas crêem PELOS sujeitos, o sujeito não precisa crer, as coisas acreditam POR ele e tentam FALAR por ele. mas isso não significa um apagamento da capacidade de agência dos sujeitos. significa, ao contrário, um reforço. na verdade, esse é um dos pontos chave da leitura sociológica hoje. há sempre uma fala ATIVA de duplo nível. é uma fala que comunica e, simultaneamente, deixa de comunicar, mantendo um pântano de dúvidas. por isso também os vetores de velocidade são um novíssimo elemento de conformação do poder e riqueza. como deve ser nossa atuação discursiva neste novo mundo? é uma reflexão interessante que considero muito importante.
https://www.facebook.com/gustavo.gindre/posts/1962483080501646
mapa da ideologia
Os habitantes dividem-se em dois subgrupos; ao pedirmos a um indivíduo para desenhar a planta de sua aldeia (a disposição espacial das cabanas) num pedaço de papel ou na areia, obtemos duas respostas muito diferentes, dependendo do subgrupo a qual ele pertença: um membro do primeiro grupo (vamos chamá-lo de "conservador-corporativista) percebe a planta da aldeia como sendo circular - um círculo de casas mais ou menos simetricamente dispostas em torno do templo central; já um membro do segundo subgrupo ("revolucionário-antagonico) percebe sua aldeia como dois aglomerados distintos de cabanas, separados por uma fronteira invisível. A questão central de Levi-Strauss é que esse exemplo de modo algum deve instigar-nos a um relativismo cultural, segundo o qual a percepção do espaço social dependeria de a que grupo o observador pertence: a própria divisão nas duas percepções "relativas" implica a referência oculta a uma constante - não à disposição objetiva ou "efetiva" das construções, mas a um núcleo traumático, a um antagonismo fundamental que os habitantes da aldeia não souberam simbolizar, internalizar, ou com o qual não chegaram a um acordo: um desequilíbrio das relações sociais que impedia a comunidade de se estabilizar num todo harmonioso. As duas percepções da planta são apenas dois esforços mutuamente excludentes de lidar com esse antagonismo traumático, de tratar sua ferida mediante a imposição de uma estrutura simbólica equilibrada. (E nem é preciso acrescentar que as coisas são exatamente idênticas no que tange à diferença sexual/de gênero: "masculino" e "feminino" são como as duas configurações de cabanas na aldeia de Levi-Strauss"...)
Zizek - Um Mapa da Ideologia
sexta-feira, 9 de novembro de 2018
pilar e caetano
pois eu vivia murcho, eu vivia morno, eu vivia concentrado nas pintas da sua barriga, eu vivia, Pilar, caído numa perplexidade, eu vivia obcecado pela ideia de que você era a infância que não tive, era o primeiro carinho que me agradou aos três meses de idade, você era a toalha que caía em minha testa de menino quando minha mãe me secava preocupada, e eu gostava, você era o ângulo que me ninava às nove da noite e eu gostava, era o reembarque perfeito em toda memória que me conformou, você era a primeira saia que me instigou em algum canto dos anos noventa, era meu primeiro rubor de face, era de você que eu falava quando julguei certo poema genial, você era a primeira vez que eu olhava pra qualquer coisa, era minha boca cheia, era uma eterna comoção, Pilar, você é a festa da existência na terra, você me esmaga, e é por isso que eu estava chorando quando te olhei no fundo, porque você, Pilar, como se não bastasse tudo você é justa, quer me igualar a você, quer um mundo de iguais, o seu sonho é impossível, te amar é impossível, e, no entanto, eu te amo.
domingo, 4 de novembro de 2018
Meus amigos
Marina é uma água viva brilhante, que parece um céu estrelado nas profundezas do mar imenso
Thiago parece uma raposa bela ágil e esbelta, passeando pelas florestas e afrontando os predadores
Gui parece uma lince maravilhoso e super sábio, discreto e exuberante na sua intensidade e existência enigmática, e que protege os seus com toda a força necessária pq, embora pareça um animal solitário, é na verdade um ser coletivo
Yasmin parece um pássaro oriental, aparvalhando os outros bichos que param pra tentar entender sua beleza detalhada e cujo canto qualquer um que cuidar com carinho ouve no momento exato
Luciana parece um golfinho agitado, que percorre longas distâncias guiada por uma intuição selvagem que nem ela compreende, mas que leva a lugares distantes que só os seres da velocidade conhecem. É um animal do afeto e da coletividade tb
Tatiana não é um animal, vc é uma força da natureza tipo os ventos que sacodem as árvores mais gigantescas, faz cair os frutos maduros para os animais da terra, muda a direção das marés e traz o sol e a chuva, você confunde os seres voadores e anima as migrações
É necessário construirmos experiências coletivas!
No Chile, país que viveu uma das ditaduras mais violentas da América Latina, onde literalmente correu um rio de sangue, há um museu de direitos humanos extraordinário. Super contemporâneo, ele possibilita uma imersão bem realista e inesquecível na experiência da ditadura. Existe um telão, por exemplo, na porta de entrada do museu, que transmite os primeiros momentos do golpe militar, onde ouvimos o terrível som dos militares cercando o palácio onde estava Allende, ouvimos o presidente em suas últimas palavras, ouvimos os sons de passos duros adentrando o espaço, ouvimos os tiros dos militares, tudo real. Allende inclusive, neste momento, segurava para sua defesa uma metralhadora que ganhou de Fidel Castro, jamais utilizada. É o horror rondando. Há uma sala repleta de fotos das covas cheias de corpos anônimos: trabalhadores, militantes ou não, assassinados brutalmente. Há um outro espaço onde podemos ler as cartinhas de crianças exiladas, escrevendo à procura de seus pais que foram obrigados a ficar para trás. Vemos narrativas sobre o período a partir dos próprios acontecimentos registrados, desde as transformações econômicas até às culturais mais singelas. É entrar numa máquina do tempo muito importante. Esse tipo de máquina é extremamente necessária em diversos territórios. Para que a gente possa falar com muita segurança: nunca mais! E dar os próximos passos a partir deste solo comum.
gustavo coelho
Para tudo o que é, há um samba de não ser, e para tudo o que não é, há um samba que o afirma.
Meus relacionamentos amorosos não saíram de uma bíblia. Meu corpo e meus sentimentos não estão em perfeita sintonia. Não acho que um dia estarão. Meu desejo vive um caos que não responde mais à normatividade com tranquilidade. Ele não se equilibra e conecta perfeitamente com meus afetos. E isso não hierarquiza minhas relações. Várias vezes eu ouço de pessoas cisheterossexuais que "sexo é o termômetro da relação, se vai mal, termina". Eu me incomodo muito com colocações como essa, que dão toda essa centralidade ao sexo. Que corpos suportam isso? Quanta opressão é necessária, quanta normatividade socada para alinhar sexo e afetividades perfeitamente? Que corpos gozam sem dificuldades neste lugar? Que modos de vida alcançam esse lugar, vibram neste lugar? Não estou diminuindo a experiência heterossexual do mundo, muito menos apagando o sofrimento e as dificuldades que as mulheres passam ao viverem esta condição, que são muitas e muito íntimas, escondidas, enfim, oprimidas. Estou apenas apontando um discurso muito cristão, base da família tradicional, que coloca a vida sexual de um par amoroso como a maior prova viva da paixão e afetividade que eventualmente os envolvidos vivam. Um discurso inclusive puramente ideológico, no sentido de que sequer se prova na prática, pois não parece que o estado atual da saúde mental e sexual de pessoas heterossexuais seja muito satisfatório. Quero apenas apontar que o desejo que rompeu ou foi obrigado a romper, de alguma forma, com a normatividade está solto por aí, está um caos e não encontrou maneira de se realizar concretamente numa sociedade tão opressora. E que as pessoas que carregam esse desejo desviante estão por aí, enlouquecendo com os discursos que muitas vezes reproduzimos.
Sou pelo fim dos direitos e relações de propriedade e herança. Mas, mesmo no estado burguês, a propriedade em tese tem suas limitações.
No Brasil, toda propriedade deve cumprir função social. Quando não cumpre esse e outros requisitos básicos e razoáveis, como o pagamento de impostos, o proprietário é notificado várias e várias vezes. Por vários anos. Se não regulariza sua propriedade, a mesma está irregular e, segundo nossa constituição, deveria ser imediatamente desapropriada pelo estado - o que, evidentemente, não acontece. Nem no campo, nem na cidade.
As ocupações de terras e terrenos devolvem a função social da propriedade e provam na prática que é possível o compartilhamento e gestão coletivas de âmbitos da vida social que são entendidas essencialmente como privadas. As ocupações forçam o estado a exercer seu papel de garantidor da lei - irregular é o proprietário, que abandona por anos sua propriedade.
Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito!
Foto do antigo Hotel Paris, um prédio dos clássicos abandonados no centro do Rio de Janeiro. Só no centro, são mais de 600 construções ociosas.
No Brasil, toda propriedade deve cumprir função social. Quando não cumpre esse e outros requisitos básicos e razoáveis, como o pagamento de impostos, o proprietário é notificado várias e várias vezes. Por vários anos. Se não regulariza sua propriedade, a mesma está irregular e, segundo nossa constituição, deveria ser imediatamente desapropriada pelo estado - o que, evidentemente, não acontece. Nem no campo, nem na cidade.
As ocupações de terras e terrenos devolvem a função social da propriedade e provam na prática que é possível o compartilhamento e gestão coletivas de âmbitos da vida social que são entendidas essencialmente como privadas. As ocupações forçam o estado a exercer seu papel de garantidor da lei - irregular é o proprietário, que abandona por anos sua propriedade.
Enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito!
Foto do antigo Hotel Paris, um prédio dos clássicos abandonados no centro do Rio de Janeiro. Só no centro, são mais de 600 construções ociosas.
um dilema ontológico
Mas o que aconteceria se abandonássemos a noção de representação? Não são poucos os que clamam que isso geraria o caos completo, a tirania, a desordem e todas as figuras imagináveis da catástrofe. Um pouco como esses cartógrafos medievais que desenham o mundo até certo ponto e depois dele colocavam monstros e abismos. Maneira de levar os navegadores a não querer ir mais longe.
Na verdade, quem defende a representação, seja a direita, seja a esquerda, encontra nela um álibi para esconder seus desejos de controle, para filtrar a sociedade construindo uma imagem da emergência popular mais fácil de controlar.
Pois, definindo as condições de representação, sou capaz de controlar a fronteira entre a existência e a inexistência.
(Só mais um esforço, safatle)
"O discurso amoroso é hoje de uma extrema solidão. Tal discurso talvez seja falado por milhares de sujeitos (quem pode saber?), mas não é sustentado por ninguém; é completamente relegado pelas linguagens existentes, ou ignorado, ou depreciado ou zombado por elas, cortado não apenas do poder, mas também de seus mecanismos (ciência, saberes, artes). Quando um discurso é assim lançado por sua própria força na deriva do inatual, deportado para fora de toda gregariedade, nada mais lhe resta além de ser o lugar, por exíguo que seja, de uma afirmação." barthes
What capital propagates is the alienation of love; the so-called 'normal' couple
is based on an alienated bond, given that the objectified and
stereotyped woman is not woman but rather the negation of
woman, and the phallic and deficient male is not man but the
negation of both man and woman. The spectacle of heterosexuality
cannot be identified with any deep amorous desire. Heterosexuality
as it presents itself today is simply the dominant 'normal' form of
a mutilated Eros; and as well as the negation of homoeroticism it
is above all the negation of love between persons of different sex.
is based on an alienated bond, given that the objectified and
stereotyped woman is not woman but rather the negation of
woman, and the phallic and deficient male is not man but the
negation of both man and woman. The spectacle of heterosexuality
cannot be identified with any deep amorous desire. Heterosexuality
as it presents itself today is simply the dominant 'normal' form of
a mutilated Eros; and as well as the negation of homoeroticism it
is above all the negation of love between persons of different sex.
mario mieli - homosexuality and liberation - elements of a gay critique
mãe
mamãe, linda pipa avoada que era, não aguentou mais que 44 anos dessa vida limitada terrestre e hoje, angélica que era, habita o espaço celestial, essa coisa desconhecida, sem tamanho, escura e luminosa, que é o único lugar que comporta o seu coração infinito e é onde um dia o meu coração vai voar também, não a toa quando eu choro é sempre noite clara e explodem luzes pela cidade, pequena representação do seu paradeiro estelar. vc agora é toda potente e eu sei disso porque quando eu deliro de saudades e desmaio dentro de um sonho eu sinto quase o fim do peso da vida e experimento a suspensão eloquente de ser infinita como você
hoje é seu aniversário e há dez anos vc faz 44 anos
Gabriel Garcia Marquez era jornalista e dizia que suas histórias fantásticas eram inspiradas na realidade, simplesmente. Que a realidade é fantástica. E o universo das fake news é fantástico, pregado na realidade concreta, no senso comum que não é simplesmente disputa de ideias, é o cimento da vida das pessoas, é o que dá sentido e direção. As fake news, além de responderem aos vetores de velocidade surreais que vivemos atualmente, gerando conteúdos poderosos permanentemente, dialogam também com a construção dessa narrativa fantástica sobre a realidade, de histórias fantásticas sobre a vida política, coisas fora do controle, coisas voando pelo ar, mundos sendo destruídos, mortes e fantasmas, a sensação de estar em um furacão constante cercado de inimigos, todos fantásticos e todos muito próximos: as mulheres, as lésbicas, as bichas, as feministas, os favelados, os comunistas. Isso dá centralidade pra existência individual das pessoas tb, é uma forma de "empoderamento". As pessoas se sentem importantes, pois se sentem pessoalmente atacadas pelo fundo simbólico das fake news (senso comum, no capitalismo essencialmente opressor). Tudo isso pra dizer que os desafios das esquerdas são enormes. Nós disputamos corpos, sentidos, modos de vida, universos simbólicos, desejos. Vai ficar cada vez mais difícil se nossas práticas continuarem atreladas fundamentalmente à disputa de idéias ou mesmo de programas, por mais valiosos que sejam. É fundamental reencantar a política. Fazer como os moradores de Macondo fizeram no auge da crise na cidade: renomearam todo o mundo ao redor.
crise e o trabalho feminino
É claro que irão fortalecer os discursos ideológicos em favor da família tradicional - leia-se o trabalho reprodutivo, afetivo e de cuidado não remunerado que as mulheres, eixo fundamental da família, realizam. Com o Brasil que nos espera, cairá mais uma vez sobre os ombros das mulheres o cuidado de idosos que não se aposentarão, de crianças que, mais do que nunca, precisarão do apoio e acompanhamento familiar (leia-se: feminino) desde a carteira de vacinação, nutrição e frequência escolar (dever do Estado, execução feminina) até às atividades lúdicas que cremos fazer parte da construção infantil, de maridos desempregados ou semi empregados que também precisarão de suas marmitas, sua atividade sexual, sua distração, esforço de cura da depressão. Serão as mulheres que velarão as vidas e condições decaídas. Mais uma vez, as mulheres trabalhadoras e os ombros que suportam o mundo. Para o trabalho feminino, não há aposentadoria. Por essa tragédia, e outras, que a glorificação da família tradicional virá com força total nos próximos anos. Por isso, também, é dever da esquerda reconstruir laços de solidariedade que aliviem material e afetivamente o nosso sofrimento e politizem as trajetórias aparentemente individuais, mas replicadas em cada casa.
no deserto, a temperatura cai rápido porque tem pouca vida. só o que é vivo retém calor. não é bem isso. o solo seco, com pouca água, perde rapidamente calor para a atmosfera. sem a formação de nuvens, o calor do dia se dissipa quando anoitece. daí, quando escurece, tudo esfria junto. a esquerda é, também, o quente do mundo. e a água. o que faz a vida se tornar suportável.
alberto martins
“Tomek, o polaco”
ou “Tomek, o último dos humanistas”
como também é conhecido
me disse:
ou “Tomek, o último dos humanistas”
como também é conhecido
me disse:
1.
a questão crucial para todo exilado
é conciliar a delicadeza que ele precisa e merece
com a dureza que ele também precisa e merece.
a questão crucial para todo exilado
é conciliar a delicadeza que ele precisa e merece
com a dureza que ele também precisa e merece.
2.
a única coisa que pode interromper o inevitável
processo de autodestruição causado pelo panorama
mais do que nunca desolador
é encontrar interlocutores à altura.
a única coisa que pode interromper o inevitável
processo de autodestruição causado pelo panorama
mais do que nunca desolador
é encontrar interlocutores à altura.
3.
a verdadeira interlocução não é de ordem subjetiva,
mas objetiva. Você não se torna interlocutor
porque deseja, mas porque foi convocado.
A interlocução não existe “por você” ou “pelo outro”,
mas porque uma terceira coisa se faz necessária.
a verdadeira interlocução não é de ordem subjetiva,
mas objetiva. Você não se torna interlocutor
porque deseja, mas porque foi convocado.
A interlocução não existe “por você” ou “pelo outro”,
mas porque uma terceira coisa se faz necessária.
4.
não é uma tarefa fácil. O telefone toca
no meio da noite e você não pode dizer
que está indisposta. É preciso atender.
Ou ele pode nunca mais tocar de novo.
não é uma tarefa fácil. O telefone toca
no meio da noite e você não pode dizer
que está indisposta. É preciso atender.
Ou ele pode nunca mais tocar de novo.
5.
nem todos suportam.
nem todos suportam.
‘Como isso se aplica ao nosso caso?’
Não tenho resposta.
Na verdade, nada se aplica a nada.
Faz tempo o mundo se tornou um pardieiro
de salas desconexas, cheias de múmias
e objetos de culto em que você tropeça
sem saber se vai emergir do outro lado.
A princesa egípcia, por exemplo.
Não há nada que você possa fazer por ela
nem ela por você. É melhor virar as costas
e esquecer as galerias e museus.
A partir de agora
aonde quer que você vá
haverá uma pedra à tua espera.
Na verdade, nada se aplica a nada.
Faz tempo o mundo se tornou um pardieiro
de salas desconexas, cheias de múmias
e objetos de culto em que você tropeça
sem saber se vai emergir do outro lado.
A princesa egípcia, por exemplo.
Não há nada que você possa fazer por ela
nem ela por você. É melhor virar as costas
e esquecer as galerias e museus.
A partir de agora
aonde quer que você vá
haverá uma pedra à tua espera.
Nossa tarefa é entalhar essa pedra.
(Alberto Martins)
encontrei na foto de perfil de uma conhecida com câncer, que optou não fazer quimio e trabalha a cura através do alinhamento energético. joguei o texto no google. achei apenas duas opçoes: alguma ediçao de 2016 da revista piauí - que trazia a referência do poema, um livro ainda nao publicado do autor - e um instagram de uma modelo, influencer, nao sei. fui na influencer. perguntei de onde ela tinha tirado aquele texto. ela nao sabia, disse estar no rolo da câmera. voltei à piauí:http://piaui.folha.uol.com.br/materia/poesias-alberto-martins/
domingo, 22 de julho de 2018
nem sempre dá pra ser bom
"nem sempre dá pra ser bom"
acabei de ouvir isso da tulipa ruiz, nossa artista jovem que canta a normalidade e as coisas que sempre pedem um tipo de recomeço e aí lembrei de alguns encontros neste ano que eu terminei a faculdade, agora eu trabalho várias horas arrastadas por dia num emprego que não é o sonho da vida (nunca gostei do lema liberal que diz trabalhe com o que ama e nunca trabalhará kaka) mas que é simplesmente normal, chego em casa e tenho uma vida normal (comum, não exatamente normativa) e durmo normalmente. acordo e faço as coisas normais, ponto. um ano normal, com coisas normais e sem grandes eventos, como era na minha juventude recente. e tenho gostado dessa vida, reclamo muito mas é mais parte da minha personalidade bem terra e menos um ranço com as minhas coisas e relações. e aí lembrei de alguns encontros neste ano com pessoas que - por condições materiais bem escandalosas - me incitam a "dar um salto", a "romper com tudo", e que ainda me oferecem sua "ajuda" para me "exorcizar deste vida tão comum", e há muito tempo eu tenho achado isso bem bizarro, tem me incomodado bastante essa postura autoritária e salvacionista que é incapaz de descer à terra e visualizar o rés-de-chão da vida dos outros, que observa os eventos do topo de um farol fantástico e solitário e fica mesmo cantando essa pedra pra vida alheia. eu lembro que eu mesma era bem assim há alguns anos atrás, olhava os outros e só via uma miséria existencial e gritava para que todo mundo se libertasse dessa pequenez e ainda cedia minha vida e energia para quem quisesse cair na infinita high way. o que eu não assumia, e hoje entendo, era que eu era como qualquer um, cheia de dores e merdas, e que quando ofendia e sacudia os outros para dar o grande salto transcendente pra lugar nenhum na verdade era um grito auto-direcionado que denunciava muito mais o meu desespero do que a mesquinhez da vida alheia. é claro que muita gente caía nessa fantasia e fizemos coisas incríveis e inesquecíveis, mas no fundo ressoava um grande vazio, uma batata quente que eu ficava jogando na mão dos outros. e hoje acho que eu tô cansada, e o cansaço faz a gente andar mais devagar mesmo e olhar a vida com mais serenidade, um estado letárgico que obviamente traz seus prejuízos mas que me trouxe uma força de um tipo novo, que eu não conhecia. há muito tempo não sinto aquele desespero que todos liam como "meu grande fogo" e há muito tempo as pessoas me dizem que eu pareço estar mal, derrotada, resignada. e eu só penso que não é possível, eu sou como qualquer outrx, não sou essencialmente melhor que ninguém e não quero levar uma vida "especial". uma coisa que nao mudou é o meu coração cheio de carinho e a minha revolta muito honesta e agarrada na pele contra as injustiças e a merda desse mundo, e aí aquela "chama" sempre foi vomitada e acho que nunca deixará de ser. mas o meu ponto principal é o meu estarrecimento em ver algumas pessoas completamente incapazes de enxergar a minha vida mesmo, os meus amores simultaneamente fortes e singelos, as minhas amizades maravilhosas, enfim, o cotidiano, violentando minha experiência na terra e dizendo "acho que cê tem que largar tudo, mudar de cidade, morar em Portugal", é como se me pedissem pra trocar de nome sendo que sei lá eu tô dizendo que o meu problema é com a minha idade, "vc tem que trocar de nome", e eu digo "mas meu problema é a minha idade", e a pessoa diz "exatamente, então troque de nome!" e eu fico não é possível que esta pessoa esteja me ouvindo. e o que é é que eu abandonei a ideia de ser grande pra viver a grandeza de todo-dia, e se eu não pareço demonstrar isso em todos os momentos da minha vida é simplesmente pq eu não quero mais dragar toda e qualquer alma pra dentro de mim, num ritual incendiário bizarro, só quero aquelas que me dão a mão com carinho e sutileza, deixando a vida passar junto com a gente. ali, no pequeno, acontece cada coisa bonita. mas essas pessoas nunca vão conseguir ver. #seilapqescrevi #pas#tuliparuizéfofa |
zizek
Os habitantes dividem-se em dois subgrupos; ao pedirmos a um indivíduo para desenhar a planta de sua aldeia (a disposição espacial das cabanas) num pedaço de papel ou na areia, obtemos duas respostas muito diferentes, dependendo do subgrupo a qual ele pertença: um membro do primeiro grupo (vamos chamá-lo de "conservador-corporativista) percebe a planta da aldeia como sendo circular - um círculo decasas mais ou menos simetricamente dispostas em torno do templo central; já um membro do segundo subgrupo ("revolucionário-antagonico) percebe sua aldeia como dois aglomerados distintos de cabanas, separados por uma fronteira invisível. A questão central de Levi-Strauss é que esse exemplo de modo algum deve instigar-nos a um relativismo cultural, segundo o qual a percepção do espaço social dependeria de a que grupo o observador pertence: a própria divisão nas duas percepções "relativas" implica a referência oculta a uma constante - não à disposição objetiva ou "efetiva" das construções, mas a um núcleo traumático, a um antagonismo fundamental que os habitantes da aldeia não souberam simbolizar, internalizar, ou com o qual não chegaram a um acordo: um desequilíbrio das relações sociais que impedia a comunidade de se estabilizar num todo harmonioso. As duas percepções da planta são apenas dois esforços mutuamente excludentes de lidar com esse antagonismo traumático, de tratar sua ferida mediante a imposição de uma estrutura simbólica equilibrada. (E nem é preciso acrescentar que as coisas são exatamente idênticas no que tange à diferença sexual/de gênero: "masculino" e "feminino" são como as duas configurações de cabanas na aldeia de Levi-Strauss"...)
Zizek - Um Mapa da Ideologia
Zizek - Um Mapa da Ideologia
ponto final
Uma vez perguntei à minha prima Natália, uma artesã de mão cheia, como que se fazia um ponto final perfeito durante a costura. Ela diz: "Ih, não sei, o ponto final é sempre uma loucura, um improviso!". Hoje fiquei pensando se a vida não é exatamente assim, os pontos finais, aquele último ato de um grande processo ou experiência não é exatamente um grande improviso, grosseiro, arcaico e poderoso por sua inevitabilidade brutal. E a gente insistindo em orquestrar circunstâncias.
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anitta
Li por aí (tour Anitta) que estamos fixados em bunda, cu, bumbum, boceta. "Coisas primitivas, uga-uga". Vou ser bem direta: como se homens cis Ht não passassem o dia inteiro se masturbando ou violando visualmente corpos pelas ruas (cu, bumbum, boceta); dignas somos nós, mulheres, bichas e todas mais, que aos poucos temos encontrado nossas maneiras de exorcizar (ou pelo menos nos liberar momentaneamente) os símbolos que nos estrangulam desde sempre (começando pela genitália, sempre), nem que seja pela repetição afirmativa, que abre sim um campo de potência surreal. Sinceramente, quem critica não tá realmente entendendo o ritual coletivo que tem sido costurado com o rebolado solitário no quarto, no banheiro, nos stories, no baile, na rua, com @s amig@s. Não é piada não, é real. Esse ataque todo é, no fundo, a um modo de vida. E obviamente nós sabemos! No fundo, pra mim esse estardalhaço todo parece uma tentativa cruel de colocar a gente no lugar de onde nunca deveríamos ter saído (e muito menos afirmado): um lugar socialmente rebaixado, uma merda, o antro de todas as opressões. Um lugar onde o cérebro não se desenvolve direito, e onde tudo o que nos resta é o corpo. Sim, tem gente dizendo isso!
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Há um canto
Na noite escura
Existe um jeito
Um tremor
Existe um
Aperto no peito
Existe um
Respirar custoso
A vida
Os dedos no coração
Existe um momento de um colapso
Um momento de um salto
Existe um ruído
Um sinal
Existe um momento
Ao ver o peito implodir
Existe um momento
Um ruído
Existe um momento
"De novo, você se injustiça"
"Contra uma angústia insofrida
tudo se deve tentar."
Há um canto
Na noite escura
Existe um jeito
Custoso
Mas existe um momento
Um sinal
"Fogem as Graças
de quem insiste em vestir grinalda,
mas felizes acolhem
quem se enfeita de flores."
Na noite escura
Existe um jeito
Um tremor
Existe um
Aperto no peito
Existe um
Respirar custoso
A vida
Os dedos no coração
Existe um momento de um colapso
Um momento de um salto
Existe um ruído
Um sinal
Existe um momento
Ao ver o peito implodir
Existe um momento
Um ruído
Existe um momento
"De novo, você se injustiça"
"Contra uma angústia insofrida
tudo se deve tentar."
Há um canto
Na noite escura
Existe um jeito
Custoso
Mas existe um momento
Um sinal
"Fogem as Graças
de quem insiste em vestir grinalda,
mas felizes acolhem
quem se enfeita de flores."
meus amigos
Meus amigos
Marina é uma água viva brilhante, que parece um céu estrelado nas profundezas do mar imenso
Thiago parece uma raposa bela ágil e esbelta, passeando pelas florestas e afrontando os predadores
Gui parece uma lince maravilhoso e super sábio, discreto e exuberante na sua intensidade e existência enigmática, e que protege os seus com toda a força necessária pq, embora pareça um animal solitário, é na verdade um ser coletivo
Yasmin parece um pássaro oriental, aparvalhando os outros bichos que param pra tentar entender sua beleza detalhada e cujo canto qualquer um que cuidar com carinho ouve no momento exato
Luciana parece um golfinho agitado, que percorre longas distâncias guiada por uma intuição selvagem que nem ela compreende, mas que leva a lugares distantes que só os seres da velocidade conhecem. É um animal do afeto e da coletividade tb
fake news e o realismo fantástico
Gabriel Garcia Marquez era jornalista e dizia que suas histórias fantásticas eram inspiradas na realidade, simplesmente. Que a realidade é fantástica. E o universo das fake news é fantástico, pregado na realidade concreta, no senso comum que não é simplesmente disputa de ideias, é o cimento da vida das pessoas, é o que dá sentido e direção. As fake news, além de responderem aos vetores de velocidade surreais que vivemos atualmente, gerando conteúdos poderosos permanentemente, dialogam também com a construção dessa narrativa fantástica sobre a realidade, de histórias fantásticas sobre a vida política, coisas fora do controle, coisas voando pelo ar, mundos sendo destruídos, mortes e fantasmas, a sensação de estar em um furacão constante cercado de inimigos, todos fantásticos e todos muito próximos: as mulheres, as lésbicas, as bichas, as feministas, os favelados, os comunistas. Isso dá centralidade pra existência individual das pessoas tb, é uma forma de "empoderamento". As pessoas se sentem importantes, pois se sentem pessoalmente atacadas pelo fundo simbólico das fake news (senso comum, no capitalismo essencialmente opressor). Tudo isso pra dizer que os desafios das esquerdas são enormes. Nós disputamos corpos, sentidos, modos de vida, universos simbólicos, desejos. Vai ficar cada vez mais difícil se nossas práticas continuarem atreladas fundamentalmente à disputa de idéias ou mesmo de programas, por mais valiosos que sejam. É fundamental reencantar a política. Fazer como os moradores de Macondo fizeram no auge da crise na cidade: renomearam todo o mundo ao redor.
nunca mais
É necessário construirmos experiências coletivas!
No Chile, país que viveu uma das ditaduras mais violentas da América Latina, onde literalmente correu um rio de sangue, há um museu de direitos humanos extraordinário. Super contemporâneo, ele possibilita uma imersão bem realista e inesquecível na experiência da ditadura. Existe um telão, por exemplo, na porta de entrada do museu, que transmite os primeiros momentos do golpe militar, onde ouvimos o terrível som dos militares cercando o palácio onde estava Allende, ouvimos o presidente em suas últimas palavras, ouvimos os sons de passos duros adentrando o espaço, ouvimos os tiros dos militares, tudo real. Allende inclusive, neste momento, segurava para sua defesa uma metralhadora que ganhou de Fidel Castro, jamais utilizada. É o horror rondando. Há uma sala repleta de fotos das covas cheias de corpos anônimos: trabalhadores, militantes ou não, assassinados brutalmente. Há um outro espaço onde podemos ler as cartinhas de crianças exiladas, escrevendo à procura de seus pais que foram obrigados a ficar para trás. Vemos narrativas sobre o período a partir dos próprios acontecimentos registrados, desde as transformações econômicas até às culturais mais singelas. É entrar numa máquina do tempo muito importante. Esse tipo de máquina é extremamente necessária em diversos territórios. Para que a gente possa falar com muita segurança: nunca mais! E dar os próximos passos a partir deste solo comum.
16 de junho
O corpo
Coisas muito grandes
Não passam
Coisas pequenas
Passam, mas com dificuldade
Para passar com tranquilidade
É necessário fragmentar-se
Não passam
Coisas pequenas
Passam, mas com dificuldade
Para passar com tranquilidade
É necessário fragmentar-se
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