domingo, 4 de novembro de 2018
Meus relacionamentos amorosos não saíram de uma bíblia. Meu corpo e meus sentimentos não estão em perfeita sintonia. Não acho que um dia estarão. Meu desejo vive um caos que não responde mais à normatividade com tranquilidade. Ele não se equilibra e conecta perfeitamente com meus afetos. E isso não hierarquiza minhas relações. Várias vezes eu ouço de pessoas cisheterossexuais que "sexo é o termômetro da relação, se vai mal, termina". Eu me incomodo muito com colocações como essa, que dão toda essa centralidade ao sexo. Que corpos suportam isso? Quanta opressão é necessária, quanta normatividade socada para alinhar sexo e afetividades perfeitamente? Que corpos gozam sem dificuldades neste lugar? Que modos de vida alcançam esse lugar, vibram neste lugar? Não estou diminuindo a experiência heterossexual do mundo, muito menos apagando o sofrimento e as dificuldades que as mulheres passam ao viverem esta condição, que são muitas e muito íntimas, escondidas, enfim, oprimidas. Estou apenas apontando um discurso muito cristão, base da família tradicional, que coloca a vida sexual de um par amoroso como a maior prova viva da paixão e afetividade que eventualmente os envolvidos vivam. Um discurso inclusive puramente ideológico, no sentido de que sequer se prova na prática, pois não parece que o estado atual da saúde mental e sexual de pessoas heterossexuais seja muito satisfatório. Quero apenas apontar que o desejo que rompeu ou foi obrigado a romper, de alguma forma, com a normatividade está solto por aí, está um caos e não encontrou maneira de se realizar concretamente numa sociedade tão opressora. E que as pessoas que carregam esse desejo desviante estão por aí, enlouquecendo com os discursos que muitas vezes reproduzimos.
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