domingo, 4 de novembro de 2018

alberto martins

“Tomek, o polaco”
ou “Tomek, o último dos humanistas”
como também é conhecido
me disse:
1.
a questão crucial para todo exilado
é conciliar a delicadeza que ele precisa e merece
com a dureza que ele também precisa e merece.
2.
a única coisa que pode interromper o inevitável
processo de autodestruição causado pelo panorama
mais do que nunca desolador
é encontrar interlocutores à altura.
3.
a verdadeira interlocução não é de ordem subjetiva,
mas objetiva. Você não se torna interlocutor
porque deseja, mas porque foi convocado.
A interlocução não existe “por você” ou “pelo outro”,
mas porque uma terceira coisa se faz necessária.
4.
não é uma tarefa fácil. O telefone toca
no meio da noite e você não pode dizer
que está indisposta. É preciso atender.
Ou ele pode nunca mais tocar de novo.
5.
nem todos suportam.
‘Como isso se aplica ao nosso caso?’
Não tenho resposta.
Na verdade, nada se aplica a nada.
Faz tempo o mundo se tornou um pardieiro
de salas desconexas, cheias de múmias
e objetos de culto em que você tropeça
sem saber se vai emergir do outro lado.
A princesa egípcia, por exemplo.
Não há nada que você possa fazer por ela
nem ela por você. É melhor virar as costas
e esquecer as galerias e museus.
A partir de agora
aonde quer que você vá
haverá uma pedra à tua espera.
Nossa tarefa é entalhar essa pedra.
(Alberto Martins)

encontrei na foto de perfil de uma conhecida com câncer, que optou não fazer quimio e trabalha a cura através do alinhamento energético. joguei o texto no google. achei apenas duas opçoes: alguma ediçao de 2016 da revista piauí - que trazia a referência do poema, um livro ainda nao publicado do autor - e um instagram de uma modelo, influencer, nao sei. fui na influencer. perguntei de onde ela tinha tirado aquele texto. ela nao sabia, disse estar no rolo da câmera. voltei à piauí:http://piaui.folha.uol.com.br/materia/poesias-alberto-martins/ 

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