sexta-feira, 9 de novembro de 2018

pilar e caetano



pois eu vivia murcho, eu vivia morno, eu vivia concentrado nas pintas da sua barriga, eu vivia, Pilar, caído numa perplexidade, eu vivia obcecado pela ideia de que você era a infância que não tive, era o primeiro carinho que me agradou aos três meses de idade, você era a toalha que caía em minha testa de menino quando minha mãe me secava preocupada, e eu gostava, você era o ângulo que me ninava às nove da noite e eu gostava, era o reembarque perfeito em toda memória que me conformou, você era a primeira saia que me instigou em algum canto dos anos noventa, era meu primeiro rubor de face, era de você que eu falava quando julguei certo poema genial, você era a primeira vez que eu olhava pra qualquer coisa, era minha boca cheia, era uma eterna comoção, Pilar, você é a festa da existência na terra, você me esmaga, e é por isso que eu estava chorando quando te olhei no fundo, porque você, Pilar, como se não bastasse tudo você é justa, quer me igualar a você, quer um mundo de iguais, o seu sonho é impossível, te amar é impossível, e, no entanto, eu te amo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário