pois eu vivia murcho, eu vivia morno, eu vivia concentrado nas pintas da sua barriga, eu vivia, Pilar, caído numa perplexidade, eu vivia obcecado pela ideia de que você era a infância que não tive, era o primeiro carinho que me agradou aos três meses de idade, você era a toalha que caía em minha testa de menino quando minha mãe me secava preocupada, e eu gostava, você era o ângulo que me ninava às nove da noite e eu gostava, era o reembarque perfeito em toda memória que me conformou, você era a primeira saia que me instigou em algum canto dos anos noventa, era meu primeiro rubor de face, era de você que eu falava quando julguei certo poema genial, você era a primeira vez que eu olhava pra qualquer coisa, era minha boca cheia, era uma eterna comoção, Pilar, você é a festa da existência na terra, você me esmaga, e é por isso que eu estava chorando quando te olhei no fundo, porque você, Pilar, como se não bastasse tudo você é justa, quer me igualar a você, quer um mundo de iguais, o seu sonho é impossível, te amar é impossível, e, no entanto, eu te amo.
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