terça-feira, 17 de junho de 2014

quantas vezes
corda no pescoço
os dias passaram
e eu não morri
a vida é mesmo uma piada
"Atravessei a rua, atravessei a vida
Acreditei que era perto e fui lá ver"

O espaço convida à ação, e antes da ação a imaginação trabalha. Ela ceifa e lavra.
encontrar um mistério e não o violentar com o desvendamento - acho que essa é a única forma de se ser justo com o outro e de manter viva a maldita máquina desejante. por trás do mistério não deve haver nada de muito novo. novo mesmo é o mistério. é a dança através da qual a pessoa esconde sua igualdade. a grande brincadeira.
o dia escorria
corríamos da noite e do mistério que apaga as linhas das coisas
que apaga a gente do tempo
e dos olhos de todos
fugíamos do escuro
fugíamos das mãos concretas que modelariam pernas, caminhos, meios
fugíamos da concretude de mãos concretas tecendo rituais, delírio, tensões, gritos, santos, um beijo
fugíamos do escuro, escultor do silêncio

mas alguém anunciou o fim da inocência, o tempo das decisões
respeitamos
lançamo-nos ao fim malicioso
metemo-nos num quarto breu
nada era dia, exceto vermelho
(...)

e olha
ao final de tudo
a inocência
redobrou

um par de meses e essa história ganhará pernas
ou para dar na porta
ou para sentar-se ao pé da sala
inundando a casa de discursos originários
Subi as escadas
Tocava um pagode
Quis dançar e sorrir, não o fiz
Nem sempre pensar é existir

porque tu

Porque tu me conheces
e não me despes
Porque sabes que, uma vez despida
rumo à derrocada
Porque sabes que despida
movimento a vida e caminho junto à cova

(escolho o que faço
enquanto morto buscando vida
para descobrir que
enquanto vivo
me sussurro
morte
morto-vivo me explico
morto-vivo me impeço
de morrer
morto-vivo me impeço
de viver)

Porque sabes que toda tristeza, fora de si, poeira de estrelas;
dentro de um ser, a vida inteira
Porque sabes da dor, e respeitas
Porque sabes que terra infértil, rachadura
E entendes que antes terra, caminhadura
Porque sabes, tu, que todo verso sobre terra conclama sangue e martírio - tu vacilas
Porque sabemos que, no momento preciso,
não me negarás a despedida

(palavras como pústulas
apóstolos ácidos
enquanto conversam
ele querem matar
para que não morra
porque é Ele
Pústula
surge para matá-lo
porque sabe que não conseguirá)
Eu a amava despreocupadamente, como quem tem a vida inteira - mas a partida daquela mulher me era tão clara! Virou-se numa frieza gaia e sumiu; pôs em evidência mais uma vez que não existe verdade, desejo, devir. Existe apenas lampejos torpes de emoção e abandono, abandono, abandono, todo dia e o tempo todo.
saudade
grande delírio mal sucedido
instala-se em todos os aposentos a impossibilidade

alexandria

talvez aquele homem fosse como um filme russo que nos canta ao ouvido preciosas fórmulas alquímicas. e talvez, para mim, nao haja escolha - e talvez seja esse o verdadeiro mito, no final das contas. talvez eu perceba a frase ideológica que guia minha vida na segunda página - quero um amor fresco todos os dias. talvez eu leia em seguida um e-mail que afirma que os nativos de meu signo dao muita importância aos sonhos. entenderia, agora, o porquê, finalmente o porquê, de certas coisas. aqui está. o outro tinha um plano prévio, eu nao via. eu tinha um sonho. mas sabe de uma coisa, meu ídolo tombado? trocava o sonho por uma vida.
Como uma boa colheita, o seu amor me aparece de vez em quando, de vez em quando some também, mas eu não me desespero, sei que a efemeridade é uma roupa do verdadeiro, e se não há frutos agora, há terra cuidando da próxima leva, e há eu cuidando da diária semeadura. Te amo sabendo de seus maus tempos, de seus silêncios todos, sabendo da sua fraqueza e da sua força tão forte. Madeira boa, cheiro de madeira. Te amo assim, como colheita, cultivando a espera sem que isso nos fira ou arda. Te amo como colheita. Poderia te amar como a um deus, e de tudo esperar, e jamais aguardar devido a suas qualidades onipresentes e potentes, poderia criar uma religião entre isso tudo e ajoelhar no fundo de um poço escuro, sentido os maus-cheiros da reclusão, servindo a uma causa que não é você nem eu, é o filho traumático resultado de não nos olharmos como pessoas tocadas pelo amor, e sim como servos cumprindo a dívida eterna. Não. Te amo como colheita, e só assim sei amar bastante. Sentindo os cheiros de um campo aberto, da alma feliz e da mente bem resolvida. Liberdade total é isso: é poder correr rumo à romaria e se excitar com os gritos das almas-mal-entendendo, aderir à histeria de que tudo é sofrer, é poder fazer isso tudo e, em lugar disso, simplesmente sentar-se à beira de uma janela, fitando tranquilamente os longos ciclos de várias colheitas. Amor é isso: nao é uma febre. Não é a mais absoluta dor. Amar é sentar-se e não sentir nada que intervenha a sanidade e tranquilidade. Amar é, finalmente, entender um pouquinho mais da vida.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Olho e
capto seu ethos
Vontade infantil de levar à boca
Tudo o que vejo e gosto