terça-feira, 17 de junho de 2014
Como
uma boa colheita, o seu amor me aparece de vez em quando, de vez em
quando some também, mas eu não me desespero, sei que a efemeridade é uma
roupa do verdadeiro, e se não há frutos agora, há terra cuidando da
próxima leva, e há eu cuidando da diária semeadura. Te amo sabendo de
seus maus tempos, de seus silêncios todos, sabendo da sua fraqueza e da
sua força tão forte. Madeira boa, cheiro de madeira.
Te amo assim, como colheita, cultivando a espera sem que isso nos fira
ou arda. Te amo como colheita. Poderia te amar como a um deus, e de tudo
esperar, e jamais aguardar devido a suas qualidades onipresentes e
potentes, poderia criar uma religião entre isso tudo e ajoelhar no fundo
de um poço escuro, sentido os maus-cheiros da reclusão, servindo a uma
causa que não é você nem eu, é o filho traumático resultado de não nos
olharmos como pessoas tocadas pelo amor, e sim como servos cumprindo a
dívida eterna. Não. Te amo como colheita, e só assim sei amar bastante.
Sentindo os cheiros de um campo aberto, da alma feliz e da mente bem
resolvida. Liberdade total é isso: é poder correr rumo à romaria e se
excitar com os gritos das almas-mal-entendendo, aderir à histeria de que
tudo é sofrer, é poder fazer isso tudo e, em lugar disso, simplesmente
sentar-se à beira de uma janela, fitando tranquilamente os longos ciclos
de várias colheitas. Amor é isso: nao é uma febre. Não é a mais
absoluta dor. Amar é sentar-se e não sentir nada que intervenha a
sanidade e tranquilidade. Amar é, finalmente, entender um pouquinho mais
da vida.
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