domingo, 22 de julho de 2018

nem sempre dá pra ser bom

"nem sempre dá pra ser bom"
acabei de ouvir isso da tulipa ruiz, nossa artista jovem que canta a normalidade e as coisas que sempre pedem um tipo de recomeço
e aí lembrei de alguns encontros neste ano que eu terminei a faculdade, agora eu trabalho várias horas arrastadas por dia num emprego que não é o sonho da vida (nunca gostei do lema liberal que diz trabalhe com o que ama e nunca trabalhará kaka) mas que é simplesmente normal, chego em casa e tenho uma vida normal (comum, não exatamente normativa) e durmo normalmente. acordo e faço as coisas normais, ponto. um ano normal, com coisas normais e sem grandes eventos, como era na minha juventude recente. e tenho gostado dessa vida, reclamo muito mas é mais parte da minha personalidade bem terra e menos um ranço com as minhas coisas e relações. e aí lembrei de alguns encontros neste ano com pessoas que - por condições materiais bem escandalosas - me incitam a "dar um salto", a "romper com tudo", e que ainda me oferecem sua "ajuda" para me "exorcizar deste vida tão comum", e há muito tempo eu tenho achado isso bem bizarro, tem me incomodado bastante essa postura autoritária e salvacionista que é incapaz de descer à terra e visualizar o rés-de-chão da vida dos outros, que observa os eventos do topo de um farol fantástico e solitário e fica mesmo cantando essa pedra pra vida alheia. eu lembro que eu mesma era bem assim há alguns anos atrás, olhava os outros e só via uma miséria existencial e gritava para que todo mundo se libertasse dessa pequenez e ainda cedia minha vida e energia para quem quisesse cair na infinita high way. o que eu não assumia, e hoje entendo, era que eu era como qualquer um, cheia de dores e merdas, e que quando ofendia e sacudia os outros para dar o grande salto transcendente pra lugar nenhum na verdade era um grito auto-direcionado que denunciava muito mais o meu desespero do que a mesquinhez da vida alheia. é claro que muita gente caía nessa fantasia e fizemos coisas incríveis e inesquecíveis, mas no fundo ressoava um grande vazio, uma batata quente que eu ficava jogando na mão dos outros. e hoje acho que eu tô cansada, e o cansaço faz a gente andar mais devagar mesmo e olhar a vida com mais serenidade, um estado letárgico que obviamente traz seus prejuízos mas que me trouxe uma força de um tipo novo, que eu não conhecia. há muito tempo não sinto aquele desespero que todos liam como "meu grande fogo" e há muito tempo as pessoas me dizem que eu pareço estar mal, derrotada, resignada. e eu só penso que não é possível, eu sou como qualquer outrx, não sou essencialmente melhor que ninguém e não quero levar uma vida "especial". uma coisa que nao mudou é o meu coração cheio de carinho e a minha revolta muito honesta e agarrada na pele contra as injustiças e a merda desse mundo, e aí aquela "chama" sempre foi vomitada e acho que nunca deixará de ser. mas o meu ponto principal é o meu estarrecimento em ver algumas pessoas completamente incapazes de enxergar a minha vida mesmo, os meus amores simultaneamente fortes e singelos, as minhas amizades maravilhosas, enfim, o cotidiano, violentando minha experiência na terra e dizendo "acho que cê tem que largar tudo, mudar de cidade, morar em Portugal", é como se me pedissem pra trocar de nome sendo que sei lá eu tô dizendo que o meu problema é com a minha idade, "vc tem que trocar de nome", e eu digo "mas meu problema é a minha idade", e a pessoa diz "exatamente, então troque de nome!" e eu fico não é possível que esta pessoa esteja me ouvindo. e o que é é que eu abandonei a ideia de ser grande pra viver a grandeza de todo-dia, e se eu não pareço demonstrar isso em todos os momentos da minha vida é simplesmente pq eu não quero mais dragar toda e qualquer alma pra dentro de mim, num ritual incendiário bizarro, só quero aquelas que me dão a mão com carinho e sutileza, deixando a vida passar junto com a gente. ali, no pequeno, acontece cada coisa bonita. mas essas pessoas nunca vão conseguir ver. #seilapqescrevi #pas#tuliparuizéfofa

zizek

Os habitantes dividem-se em dois subgrupos; ao pedirmos a um indivíduo para desenhar a planta de sua aldeia (a disposição espacial das cabanas) num pedaço de papel ou na areia, obtemos duas respostas muito diferentes, dependendo do subgrupo a qual ele pertença: um membro do primeiro grupo (vamos chamá-lo de "conservador-corporativista) percebe a planta da aldeia como sendo circular - um círculo decasas mais ou menos simetricamente dispostas em torno do templo central; já um membro do segundo subgrupo ("revolucionário-antagonico) percebe sua aldeia como dois aglomerados distintos de cabanas, separados por uma fronteira invisível. A questão central de Levi-Strauss é que esse exemplo de modo algum deve instigar-nos a um relativismo cultural, segundo o qual a percepção do espaço social dependeria de a que grupo o observador pertence: a própria divisão nas duas percepções "relativas" implica a referência oculta a uma constante - não à disposição objetiva ou "efetiva" das construções, mas a um núcleo traumático, a um antagonismo fundamental que os habitantes da aldeia não souberam simbolizar, internalizar, ou com o qual não chegaram a um acordo: um desequilíbrio das relações sociais que impedia a comunidade de se estabilizar num todo harmonioso. As duas percepções da planta são apenas dois esforços mutuamente excludentes de lidar com esse antagonismo traumático, de tratar sua ferida mediante a imposição de uma estrutura simbólica equilibrada. (E nem é preciso acrescentar que as coisas são exatamente idênticas no que tange à diferença sexual/de gênero: "masculino" e "feminino" são como as duas configurações de cabanas na aldeia de Levi-Strauss"...)

Zizek - Um Mapa da Ideologia
Cantei a divisão na consciência,
de quem fugiu de sua cidade destruída e foi
em direção a uma cidade que ainda precisa
ser construída. E, na dor da destruição,
misturada à esperança da fundação, exaure
obscuramente o seu mandato...

Pasolini

ponto final

Uma vez perguntei à minha prima Natália, uma artesã de mão cheia, como que se fazia um ponto final perfeito durante a costura. Ela diz: "Ih, não sei, o ponto final é sempre uma loucura, um improviso!". Hoje fiquei pensando se a vida não é exatamente assim, os pontos finais, aquele último ato de um grande processo ou experiência não é exatamente um grande improviso, grosseiro, arcaico e poderoso por sua inevitabilidade brutal. E a gente insistindo em orquestrar circunstâncias.

anitta

Li por aí (tour Anitta) que estamos fixados em bunda, cu, bumbum, boceta. "Coisas primitivas, uga-uga". Vou ser bem direta: como se homens cis Ht não passassem o dia inteiro se masturbando ou violando visualmente corpos pelas ruas (cu, bumbum, boceta); dignas somos nós, mulheres, bichas e todas mais, que aos poucos temos encontrado nossas maneiras de exorcizar (ou pelo menos nos liberar momentaneamente) os símbolos que nos estrangulam desde sempre (começando pela genitália, sempre), nem que seja pela repetição afirmativa, que abre sim um campo de potência surreal. Sinceramente, quem critica não tá realmente entendendo o ritual coletivo que tem sido costurado com o rebolado solitário no quarto, no banheiro, nos stories, no baile, na rua, com @s amig@s. Não é piada não, é real. Esse ataque todo é, no fundo, a um modo de vida. E obviamente nós sabemos! No fundo, pra mim esse estardalhaço todo parece uma tentativa cruel de colocar a gente no lugar de onde nunca deveríamos ter saído (e muito menos afirmado): um lugar socialmente rebaixado, uma merda, o antro de todas as opressões. Um lugar onde o cérebro não se desenvolve direito, e onde tudo o que nos resta é o corpo. Sim, tem gente dizendo isso!
Há um canto
Na noite escura
Existe um jeito
Um tremor
Existe um
Aperto no peito
Existe um
Respirar custoso
A vida
Os dedos no coração

Existe um momento de um colapso
Um momento de um salto
Existe um ruído
Um sinal
Existe um momento
Ao ver o peito implodir
Existe um momento
Um ruído
Existe um momento

"De novo, você se injustiça"
"Contra uma angústia insofrida
tudo se deve tentar."

Há um canto
Na noite escura
Existe um jeito
Custoso
Mas existe um momento
Um sinal

"Fogem as Graças
de quem insiste em vestir grinalda,
mas felizes acolhem
quem se enfeita de flores."

meus amigos

Meus amigos
Marina é uma água viva brilhante, que parece um céu estrelado nas profundezas do mar imenso
Thiago parece uma raposa bela ágil e esbelta, passeando pelas florestas e afrontando os predadores
Gui parece uma lince maravilhoso e super sábio, discreto e exuberante na sua intensidade e existência enigmática, e que protege os seus com toda a força necessária pq, embora pareça um animal solitário, é na verdade um ser coletivo
Yasmin parece um pássaro oriental, aparvalhando os outros bichos que param pra tentar entender sua beleza detalhada e cujo canto qualquer um que cuidar com carinho ouve no momento exato
Luciana parece um golfinho agitado, que percorre longas distâncias guiada por uma intuição selvagem que nem ela compreende, mas que leva a lugares distantes que só os seres da velocidade conhecem. É um animal do afeto e da coletividade tb

fake news e o realismo fantástico

Gabriel Garcia Marquez era jornalista e dizia que suas histórias fantásticas eram inspiradas na realidade, simplesmente. Que a realidade é fantástica. E o universo das fake news é fantástico, pregado na realidade concreta, no senso comum que não é simplesmente disputa de ideias, é o cimento da vida das pessoas, é o que dá sentido e direção. As fake news, além de responderem aos vetores de velocidade surreais que vivemos atualmente, gerando conteúdos poderosos permanentemente, dialogam também com a construção dessa narrativa fantástica sobre a realidade, de histórias fantásticas sobre a vida política, coisas fora do controle, coisas voando pelo ar, mundos sendo destruídos, mortes e fantasmas, a sensação de estar em um furacão constante cercado de inimigos, todos fantásticos e todos muito próximos: as mulheres, as lésbicas, as bichas, as feministas, os favelados, os comunistas. Isso dá centralidade pra existência individual das pessoas tb, é uma forma de "empoderamento". As pessoas se sentem importantes, pois se sentem pessoalmente atacadas pelo fundo simbólico das fake news (senso comum, no capitalismo essencialmente opressor). Tudo isso pra dizer que os desafios das esquerdas são enormes. Nós disputamos corpos, sentidos, modos de vida, universos simbólicos, desejos. Vai ficar cada vez mais difícil se nossas práticas continuarem atreladas fundamentalmente à disputa de idéias ou mesmo de programas, por mais valiosos que sejam. É fundamental reencantar a política. Fazer como os moradores de Macondo fizeram no auge da crise na cidade: renomearam todo o mundo ao redor.

nunca mais

É necessário construirmos experiências coletivas!
No Chile, país que viveu uma das ditaduras mais violentas da América Latina, onde literalmente correu um rio de sangue, há um museu de direitos humanos extraordinário. Super contemporâneo, ele possibilita uma imersão bem realista e inesquecível na experiência da ditadura. Existe um telão, por exemplo, na porta de entrada do museu, que transmite os primeiros momentos do golpe militar, onde ouvimos o terrível som dos militares cercando o palácio onde estava Allende, ouvimos o presidente em suas últimas palavras, ouvimos os sons de passos duros adentrando o espaço, ouvimos os tiros dos militares, tudo real. Allende inclusive, neste momento, segurava para sua defesa uma metralhadora que ganhou de Fidel Castro, jamais utilizada. É o horror rondando. Há uma sala repleta de fotos das covas cheias de corpos anônimos: trabalhadores, militantes ou não, assassinados brutalmente. Há um outro espaço onde podemos ler as cartinhas de crianças exiladas, escrevendo à procura de seus pais que foram obrigados a ficar para trás. Vemos narrativas sobre o período a partir dos próprios acontecimentos registrados, desde as transformações econômicas até às culturais mais singelas. É entrar numa máquina do tempo muito importante. Esse tipo de máquina é extremamente necessária em diversos territórios. Para que a gente possa falar com muita segurança: nunca mais! E dar os próximos passos a partir deste solo comum.

16 de junho

O corpo
Coisas muito grandes
Não passam
Coisas pequenas
Passam, mas com dificuldade
Para passar com tranquilidade
É necessário fragmentar-se