domingo, 22 de julho de 2018

fake news e o realismo fantástico

Gabriel Garcia Marquez era jornalista e dizia que suas histórias fantásticas eram inspiradas na realidade, simplesmente. Que a realidade é fantástica. E o universo das fake news é fantástico, pregado na realidade concreta, no senso comum que não é simplesmente disputa de ideias, é o cimento da vida das pessoas, é o que dá sentido e direção. As fake news, além de responderem aos vetores de velocidade surreais que vivemos atualmente, gerando conteúdos poderosos permanentemente, dialogam também com a construção dessa narrativa fantástica sobre a realidade, de histórias fantásticas sobre a vida política, coisas fora do controle, coisas voando pelo ar, mundos sendo destruídos, mortes e fantasmas, a sensação de estar em um furacão constante cercado de inimigos, todos fantásticos e todos muito próximos: as mulheres, as lésbicas, as bichas, as feministas, os favelados, os comunistas. Isso dá centralidade pra existência individual das pessoas tb, é uma forma de "empoderamento". As pessoas se sentem importantes, pois se sentem pessoalmente atacadas pelo fundo simbólico das fake news (senso comum, no capitalismo essencialmente opressor). Tudo isso pra dizer que os desafios das esquerdas são enormes. Nós disputamos corpos, sentidos, modos de vida, universos simbólicos, desejos. Vai ficar cada vez mais difícil se nossas práticas continuarem atreladas fundamentalmente à disputa de idéias ou mesmo de programas, por mais valiosos que sejam. É fundamental reencantar a política. Fazer como os moradores de Macondo fizeram no auge da crise na cidade: renomearam todo o mundo ao redor.

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