Os habitantes dividem-se em dois subgrupos; ao pedirmos a um indivíduo para desenhar a planta de sua aldeia (a disposição espacial das cabanas) num pedaço de papel ou na areia, obtemos duas respostas muito diferentes, dependendo do subgrupo a qual ele pertença: um membro do primeiro grupo (vamos chamá-lo de "conservador-corporativista) percebe a planta da aldeia como sendo circular - um círculo decasas mais ou menos simetricamente dispostas em torno do templo central; já um membro do segundo subgrupo ("revolucionário-antagonico) percebe sua aldeia como dois aglomerados distintos de cabanas, separados por uma fronteira invisível. A questão central de Levi-Strauss é que esse exemplo de modo algum deve instigar-nos a um relativismo cultural, segundo o qual a percepção do espaço social dependeria de a que grupo o observador pertence: a própria divisão nas duas percepções "relativas" implica a referência oculta a uma constante - não à disposição objetiva ou "efetiva" das construções, mas a um núcleo traumático, a um antagonismo fundamental que os habitantes da aldeia não souberam simbolizar, internalizar, ou com o qual não chegaram a um acordo: um desequilíbrio das relações sociais que impedia a comunidade de se estabilizar num todo harmonioso. As duas percepções da planta são apenas dois esforços mutuamente excludentes de lidar com esse antagonismo traumático, de tratar sua ferida mediante a imposição de uma estrutura simbólica equilibrada. (E nem é preciso acrescentar que as coisas são exatamente idênticas no que tange à diferença sexual/de gênero: "masculino" e "feminino" são como as duas configurações de cabanas na aldeia de Levi-Strauss"...)
Zizek - Um Mapa da Ideologia
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