terça-feira, 27 de outubro de 2015

Tô lendo um livro maravilhoso onde uma das principais personagens, Maslova, aparece o tempo inteiro na narrativa, mas só ganha vida quando é atravessada pelo olhar de algum homem. O livro começa, inclusive, com o julgamento de Maslova após um crime super interessante: Maslova é uma prostituta e um de seus clientes começa a obrigá-la a violar-se mais do que o normal dos outros homens; a personagem decide, então, colocar um sonífero em sua bebida, para escapar do quarto durante seu sono. O sonífero, na verdade, era um veneno - detalhe que Maslova desconhecia. O interessante é que, para escapar dos ataques do homem, adormecê-lo parecia ser a saída prática, mas o destino ofereceu à personagem a única saída verdadeiramente eficaz: a morte do homem. Para florescer a identidade feminina ou algo que o valha, algo no homem simbólico há de morrer. Enfim. Outro detalhe interessante é que Maslova é levemente estrábica, sugerindo que o olhar errático da mulher apresenta espaços ocultos impenetráveis àqueles que não guardam o mesmo estrabismo, sugerindo que a Maslova habita dois mundo diferentes ao mesmo tempo, conciliando princípios e temporalidades que, no mundo dos "homens", são inconciliáveis, além de guardar também um refúgio maravilhoso que seduz todos que percebem sua existência, embora não o penetrem. O estrabismo de Maslova, pra mim, é uma bela representação de sororidade também - estrábicas que se olham e se reconhecem. E, também de novo, é uma bela representação do quanto a mulher tem de se fingir de sonsa, se fingir de cega pra sobreviver com algum nível de sanidade nesse mundo. Foda.

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