sexta-feira, 3 de maio de 2013

não quero ser um homem que lê poemas
que vê filme francês
que fala francês
que cheira bem
que conhece a filosofia e fala de dialética
que pinta o rosto
que reproduz as cifras dos amores antigos quero entender a COSMOLOGIA da vivência
quero um ouvido sutil que apreende os brilhantes e elevados diálogos do SILÊNCIO
que participa do outro lado das coisas
que carrega o murmúrio invisível das florestas
e, dos encontros,
quero a ALQUIMIA da alma e matéria porque
a matéria
sozinha
é mentira
e a matéria
em estado de mentira
violenta a alma
(já diariamente violentada... a alma, preciosa parte de nós que nos conecta ao poema, ao filme, à lingua, ao sexo)
assim, dos encontros
quero permanentemente ativada a memória poética - fusão de alma e matéria, refúgio de uma vida inconclusa ("Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui/ Sê todo em cada coisa/ Põe quanto és/ No mínimo que fazes)
dos momentos
não os quero como mera interação cronológica entre matéria e espaço
quero-os, na medida do possível - ou, melhor dizendo, do humor do dia - como celebração da harmonia matéria-alma; na direção permanente da memória poética
não quero minha vida como aposento da matéria - digo, não quero minha vida à mercê das comoções supérfluas e dos maus-cheiros
tampouco quero-a como aposento da alma - digo, não quero minha vida como cárcere lácteo, lugar de recolhimento oco e odor de uma abadia
quero, de tudo, o ENCANTAMENTO conduzido pela sinfonia fundamental da alma e da matéria.
e, pensando desta forma
aguardo meus cem anos de solidão

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