segunda-feira, 3 de junho de 2013

To The Wonder- Resenha

"A imagem é indivisível e inapreensível e depende da nossa consciência e do mundo real que tenta corporificar. Se o mundo for impenetrável, a imagem também o será. (...) Enquanto observação precisa da vida, a imagem nos traz à mente a poesia japonesa. Nesta o que me fascina é a recusa em até mesmo sugerir a espécie de significado final da imagem, que pode ser gradualmente decifrado como uma charada. Os haicai cultivam suas imagens de tal forma que elas NADA SIGNIFICAM PARA ALÉM DE SI MESMAS, ao mesmo tempo que, por expressarem TANTO, torna-se impossível apreender o seu significado final. Quanto mais a imagem corresponde à sua função, mais impossível se torna restringi-la à nitidez de uma fórmula intelectual.
O LEITOR DOS HAICAI DEVE INCORPORAR-SE A ELE COMO À NATUREZA, DEVE MERGULHAR, PERDER-SE EM SUAS PROFUNDEZAS COMO NO COSMOS, ONDE NÃO EXISTEM NEM O FUNDO NEM O ALTO." (Tarkovski, Esculpir o Tempo)

e fica aqui minha resenha sobre o SUBLIME Terrence Malick e seu último filme, To The Wonder. SUBLIME, como sempre. Mas Malick agora tá jogando cada vez mais com a sua PRÓPRIA subjetividade, então... pra quem não assistiu com atenção aos últimos filmes dele, a interlocução com esse último vai ser fraquinha... o filme fala sobre amor e solidão - amor a Deus e amor ao homem - e a solidão como desdobramento de uma CRISE DE FÉ - se amar verdadeiramente, a Deus ou ao homem, significa amar algo invisível, intocável e APARENTEMENTE nunca passível de reciprocidade, já que se quando se ama, se ama TUDO e NADA AO MESMO TEMPO... bom, se amar é isso (em linhas pobres aqui), se amar é isso... a fé no amor nos joga em um campo deserto, deserto mesmo, e caminhamos em qualquer direção e esta direção é sempre em frente, e caminhamos de braços abertos e levantados aos céus, quase como se o céu tivesse algo de magnetismo e percebesse nosso estado de fé e amor... e quando a materialidade do mundo e todos os seus símbolos e subjetividades começam a nos permear, permear,permear... nos contaminamos, e exigimos reciprocidade do outro (de Deus, do homem), e assim a terra está contaminada -no filme, a terra está literalmente contaminada por metais pesados. não somos mais capazes de andar no campo deserto às cegas... e a crise é tudo... pra quem tem sono ou pouca paciência ou pouca sensibilidade... Ben Affleck, Rachel McAdams e Javier Bardem vão se transformar de grandes nomes a só mais um cenário que nada passa. sério, foda-se, Malick é pros fortes. SENSIBILIDADE é a palavra.

falaria mto mais desse filme, mas não ouso. não ouso pq Malick é o maior diretor que eu já conheci. me entrego a um filme dele já com os olhos marejados, me entrego a sua arte sei lá, com devoção mesmo. a vida é completamente inapreensível, mesmo no micro. e indivisível tb. e Malick SACOU TUDO. seus filmes tem duas horas e não têm diálogos. seus filmes, com imagens inapreensíveis e indivisíveis, não poderiam ser mais explícitos. parecem um sonho - há só honestidade de sentimentos e sensações, tudo no seu mais cru estado essencial - a essa SUBLIME pureza, alguns chamam de MORALISMO... galera, quem chama Malick de moralista nao ta entendendo NADA. seus filmes são feitos só de imagens, como é a vida pra mim - imagens que se recusam a ceder ao sentido narrativo - imagens em estado de extrema ereção, e, ao mesmo tempo, em estado de latente esvaziamento.


é isso.

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